23/01/2012

CAPS, um projeto entre o psíquico e o social





Procuramos descrever aqui uma maneira de entender o projeto Caps e uma maneira de colocar em prática esse entendimento, em especial no que se refere ao Caps infantil. Como cada CAPS é regionalizado, com projetos de base territoriais, cada CAPS constrói seu próprio projeto terapêutico. Propomos aqui uma leitura, a nossa, em 3 partes: I) considerações sobre o projeto Caps; II) sobre a equipe interdisciplinar; e III) sobre a organização da grade de atividades, entendida como uma conseqüência dos dois eixos anteriores.




I

Concebemos o Caps infantil como uma instituição ampliada, para tratamento de crianças e adolescentes com transtornos mentais graves, dificuldades importantes de socialização e adaptação ao convívio social. Porque ampliada? Porque o Caps se insere, dentro da história da Saúde Mental, como uma terceira via, nem só psíquica nem só social, mas entre o psíquico e o social. Ou seja, entre os atendimentos clássicos, ambulatoriais, com hora marcada, e os atendimentos socialiantes, herança do movimento anti-manicomial, de re-inserção da pessoa na cidade.

São muitas as diferenças entre esses diferentes modos de tratar: de um tempo limitado da consulta a um tempo expandido; do espaço fechado do consultório a espaços ampliados como a cozinha, a recepção, o corredor, o playground; do cuidado puramente medicamentoso a um cuidado que envolve também a linguagem e a socialização do paciente.

A partir dos anos 60 e 70, uma nova maneira de compreender o sofrimento mental surge na Itália, com Basaglia; na França, com Lacan e Mannoni; e na Inglaterra, com Laing. Psiquiatras e psicanalistas sugerem então uma relação entre a loucura e a exclusão nas sociedades modernas. Os manicômios, espaços de contenção e isolamento para tratar a doença mental, começam a ser questionados, e a relação do sujeito com o Outro se torna fundamental em sua dupla função: como uma forma de explicar a causa do sofrimento mental e também para indicar uma forma possível de tratamento. Ou seja, a relação com o Outro passa a ser entendida como a causa da doença e também como uma maneira de tratar a doença.

Essa nova forma de entender a doença mental sugere então que o convívio social deve ser retomado, que o louco fica mais louco ainda pelo seu isolamento do mundo, isolamento que vem das dificuldades do próprio doente (pelo seu corpo fragmentado, pela sua cabeça confusa, pela sua dificuldade de comunicação), e também pelas dificuldades das pessoas ao seu redor, da família e da sociedade, incapazes de suportar as crises do paciente, sua loucura, insensatez, esquisitice.

Seguindo essa forma moderna de tratar a doença mental, mais “socializante”, o nosso objetivo com o Caps passa a ser o de facilitadores da comunicação e da relação perdida, atuando como ponte entre o doente e o Outro. Nesse sentido, o objetivo maior do Caps é a inclusão, que pode ser entendida de dois modos: como um fim, efeito do trabalho, ou seja, ficar melhor para ser incluído, mas também como um meio, uma ferramenta clínica, ou seja, ser incluído para ficar melhor.

Porque esta forma de tratar a doença mental insiste na inclusão? Porque acredita que circular pela cidade ajuda o doente a estabilizar sua doença. Habitar o bairro, usar os elementos da cultura, como os jogos, brincadeiras, escola, auxilia o doente. Circular e se apropriar desta organização simbólica, presente na cultura, pode ajudar a criança e o adolescente desorganizados psiquicamente a se organizarem, porque esses elementos da cultura carregam a mesma organização simbólica presente na linguagem. Por isso, o efeito desta circulação pode ser terapêutico, na medida em que empresta ao sujeito uma organização externa à falta de organização subjetiva que ele apresenta, ajudando-o em suas relações cotidianas.

Por conta dessa visão socializante, o Caps é comumente confundido com um projeto social. Ora, o Caps não é um projeto social, ele é um projeto de saúde mental, que utiliza o social como uma ferramenta de tratamento, assim como os psicólogos utilizam a linguagem e os médicos utilizam os remédios. O Caps não existe para tapar os buracos políticos de descuido social, para arrumar trabalho e ocupação aos que adoecem por falta de trabalho, ou para dar comida aos que adoecem por fome. O Caps não existe para distribuir vale-transporte para a população de baixa renda: a distribuição de vale-transporte, assim como a comida e o trabalho, devem ser entendidos como ferramentas de tratamento. O nosso objetivo é criar em instituição um espaço que seja o mais parecido possível com a vida cotidiana, para propiciar o acesso aos elementos simbólicos presentes na comunidade, pois esses elementos simbólicos ajudam o sujeito, qualquer sujeito, a se organizar psiquicamente.

Muitas crianças, por conta de sua doença, ou por conta da doença de sua família e da sociedade, não podem circular pela rua, pela escola, ficam isoladas, escondidas em casa, sem acesso à escola, sem acesso aos jogos, brincadeiras, regras, e mesmo sem acesso ao contato com outras crianças. Sua doença se cronifica por conta deste não-acesso aos objetos do mundo, condição de todo processo de organização psíquica. Em suma, elas ficam privadas do contato com o Outro, que está presente em todo e qualquer elemento cultural compartilhado.

Por isso, oferecer espaços em que as crianças possam comer juntas, por exemplo, não visa matar sua fome, mas sim propiciar que a criança possa se organizar através dos elementos simbólicos presentes em uma refeição: “não se come com as mãos, mas com o garfo e faca. Depois de comer cada um tira seu prato e o lava com uma bucha com detergente, colocamos os pratos no escorredor, os talheres a gente também lava, as canecas ficam na primeira gaveta do lado direito da pia”.

Este é somente um exemplo dos elementos organizadores presentes em uma atividade cotidiana como uma refeição. Poderíamos pensar que estamos ensinando boas maneiras a essas crianças, mas a etiqueta e a adequação não são nossos objetivos com essa atividade. Essa proposta tem a função de emprestar ao psicótico, freqüentemente isolado em rituais e estereotipias particulares, um elemento compartilhado por todos, para que ele possa se reconhecer também como integrante de um mesmo código social e cultural, e assim se ver e ser realmente incluído. Esta é uma maneira de entender e praticar a inclusão: ao compartilhar elementos simbólicos comuns, presentes na vida cotidiana, o sujeito pode se reconhecer como representante e integrante da sociedade, ao compartilhar uma refeição, uma brincadeira, um jogo, uma linguagem comum.

Nesse sentido, a proposta de tratamento que sugerimos insiste na criação de um espaço e de um tempo em que as crianças e adolescentes desestruturados psiquicamente possam fazer uso de elementos simbólicos cotidianos para que os ajudemos a se organizar. Desta forma, pensamos que espaços como a cozinha, sala de jogos, sala de tv, sala de videogame, quadra de esportes, podem servir de suporte para atividades cotidianas que têm como objetivo o tratamento da desorganização psíquica e do sofrimento mental.

II

Os técnicos, assim, independentemente de sua formação acadêmica, passam a ter uma função comum: a de representantes da cultura dos homens, representantes da linguagem, aqueles que podem reconhecer o ato do sujeito como um discurso, e incluí-lo em um código comum, compartilhado. Emprestam seus corpos ora como sujeitos ora como objetos, emprestam seus desejos como homens e mulheres, suas experiências de vida como exemplos de amarração do real, do simbólico e do imaginário. Essa passa a ser a principal função dos técnicos dentro de um Caps. Não como psicólogos, nem como fonos, nem como enfermeiras, mas como homens e mulheres, com suas amarrações particulares, com seus diferentes estilos de humanidade.

A importância de termos uma equipe onde homens e mulheres se doam como representantes da cultura, da humanidade, onde os profissionais não vomitam seu saber acadêmico pelos corredores, reside principalmente na importância da desalienação do sujeito ao saber do Outro, desalienação de um saber externo que aprisiona, objetifica o sujeito e o desumaniza. A herança psiquiátrica deixou como seqüela maior esta objetificação do doente através de uma alienação ao saber médico, a uma redução de sua humanidade ao seu organismo, que ninguém, a não ser o médico, teria condições de decifrar. E temos no Caps vários exemplos em que isso acontece: várias mães de pacientes relatam que o médico disse que seu filho é retardado, que seu retardo é genético, e que por isso ele nunca aprenderia nada, e então não adiantaria freqüentar uma escola. Esse saber médico ainda é um obstáculo que impede ao paciente a possibilidade de se tratar, porque o que o médico diz marca seu destino como doente para o resto da vida.

Por isso a criação de uma nova forma de tratamento, em que nenhum dos técnicos vai alienar o paciente em seu saber específico, acadêmico, seja ele qual for: psiquiatria, psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, etc. Passamos a dar voz aos pacientes para que eles falem de sua doença, para que possam construir seu mundo com a ajuda do Outro, e não mais que esse Outro construa seu destino em seu lugar.

Então, acabar com a especificidade dos saberes técnicos dentro de um Caps responde a essa mudança, de um retorno do saber ao sujeito, de um saber técnico alienante a um saber do sujeito sobre seu próprio sofrimento e sobre seu mundo simbólico.

Mas então qual seria o ganho em termos uma equipe interdisciplinar, se não aproveitamos a especificidade da formação acadêmica de cada técnico?

Essa questão gerou um número grande de desvios e mal entendidos nos Caps, a partir de um entendimento equivocado da proposta, pois a enfermeira passou a fazer psicoterapia, o psicólogo passou a se meter na medicação, a cozinheira faz grupo de mães, e o chefe administrativo acha que pode fazer encaminhamentos sem passar pela equipe técnica. Ou seja, todo mundo se crê apto a fazer qualquer coisa, mesmo sem saber direito o que está fazendo.

Ora, esta é uma deformação da idéia original. Acabarmos com as especificidades dos técnicos em um Caps responde a uma não-alienação do paciente ao saber técnico e acadêmico, principalmente ao saber médico. Isso não quer dizer que uma avaliação diagnóstica, por exemplo, possa ser realizada por qualquer pessoa da equipe: ela deve ser realizada pelo psicólogo. Quando estivermos realizando o trabalho do cotidiano, esse que apresentamos anteriormente, de humanização das crianças, servindo como modelo, como homens e mulheres, aí sim entra a não-especificidade técnica da equipe, aí sim entra o segurança servindo de modelo masculino para alguns jovens, a importância da faxineira em pegar uma criança pela mão e fazê-la limpar o chão que acabou de sujar, a importância da cozinheira ensinando uma criança a lavar sua caneca após tomar leite.

Mas a psicoterapia deve continuar sendo feita pelos psicólogos e o grupo de facilitação pedagógica deve continuar sendo feito pela pedagoga. Isso não significa que as discussões clínicas não possam contemplar embates interdisciplinares, e eles são especialmente ricos, principalmente com os médicos, quando a equipe começa a questionar o porquê deste medicamento e não o outro. Mas enfim, as especificidades dos técnicos têm lugar nas atividades ditas “clínicas”, fundamentais ao tratamento, e nas atividades de “convivência” ou “humanizantes”, aí sim os técnicos devem se despir de todo saber acadêmico, e estarem investidos simplesmente de um desejo não-anônimo, para poderem servir de modelo de homem e mulher e de representantes da cultura.

III

Assim concebemos a construção da Grade de Atividades no Caps, procurando contemplar essas duas vertentes do tratamento. Temos, de um lado, as “atividades clínicas”, e de outro, as “atividades de convivência”. Nas atividades clínicas temos o Grupo de mães, o Grupo de Adolescentes, o Grupo dos Pequenos, o Grupo de Consciência Fonológica, os atendimentos individuais, o Grupo de Jardinagem, o Grupo de T.O., entre outros. Essas atividades têm objetivos terapêuticos que são estabelecidos a partir do entendimento técnico-acadêmico de cada um dos diferentes profissionais, e aqui entra a importância da especificidade técnica de cada um dos membros da equipe.

Nas atividades de convivência não são estabelececidos objetivos terapêuticos, pois a idéia é proporcionar às crianças circularem livremente pelo Caps, junto das outras crianças e dos técnicos, em atividades de café da manhã, almoço, jogos, brincadeiras, videogame, bola, corrida. As atividades de convivência não estabelecem objetivos terapêuticos, mas elas causam efeitos terapêuticos, pois todas essas atividades, apesar de livres, são atividades estruturadas, que ajudam o paciente a se organizar. Jogar videogame livremente é uma atividade estruturada, pois cada um tem a sua vez, cada um pode escolher o jogo que quer jogar, cada jogo tem um objetivo definido, cada jogada tem um tempo de acabar, existe começo, meio e fim, etc. Nessas atividades de convivência, os técnicos devem estar despidos de seu saber técnico, e devem servir simplesmente de modelo de gente, do mundo, como dissemos anteriormente, como aqueles que podem reconhecer o psicótico como representante da mesma cultura, e assim propiciar uma inclusão efetiva.


(Trabalho apresentado no 1o. Encontro de Caps i – DRS-1 – Osasco – SP – 20/06/2008)


20/01/2012

Cortar um texto





Não fico lá muito feliz quando preciso cortar um texto para que ele caiba no projeto editorial do meio em que será publicizado, seja um artigo, um boletim, ou até uma apresentação em um seminário ou congresso.

Por exemplo, não vejo motivo para cortar um texto de um boletim online, que não tem limite de páginas, não tem gasto extra para a impressão de mais ou menos papel, não tem a questão do tempo, tão urgente em nossos dias. Se fosse em um Congresso Científico, por exemplo, com uma apresentação de trabalhos em discussões públicas, o tempo em geral é limitado para que todos tenham seu direito de falar preservado. Mas isso está ausente em um boletim online. Nem gasto extra, nem atentado contra os eco-conscientes que denunciam o desperdício de papel, nem disputa pelo tempo.

Mas mesmo para um Congresso, a exigência padrão de limitar o texto em 6.000 caracteres é frustrante: quando a gente começa a esquentar no desenvolvimento do texto, quase chegando ao clímax, PUF!, é hora de parar, concluir de maneira seca e rever o texto todo, buscando as digressões e exemplos, vítimas dos primeiros cortes.  E passamos, e revemos, e mandamos o texto costurado com a impressão que falta alguma coisa a dizer...

Acho importante o exercício da leitura e da escrita para a construção das idéias, principalmente em Psicanálise. O saudável exercício de escrever inclui trabalhar as idéias, implica uma introdução, um desenvolvimento, um fechamento. Nós trabalhamos e organizamos as idéias em nossa cabeça, quando escrevemos.

Atualmente, esse trabalho que existe na escrita está sendo deixado de lado pela simples preocupação moderna em “informar”, ao passo que o que está em questão é a formação, não a informação. A formação, através da leitura e da escrita, necessita de um tempo diferente deste que é exigido pela pós-modernidade.

Hoje em dia, reduzimos nossa formação ao mínimo possível, pois não há tempo a perder lendo um texto muito grande. Preferimos nos informar com as manchetes, ao invés de lermos a matéria toda. Preferimos ler um comentário do seminário de Lacan, ou o comentário do comentário (quanto menor melhor), ao invés de "perdermos nosso tempo" lendo o seminário inteiro. Sem tempo para textos longos ou difíceis, sucumbimos também à era dos tweets, último e mais econômico recurso para remediar o empobrecimento, em última análise, do próprio laço social. Que tipo de reflexão pode ser alimentada com argumentações de 3 linhas? Ou melhor: que tipo de reflexão queremos propiciar em nossos interlocutores, com argumentações de 3 linhas? Que tipo de formação queremos?

Vivemos em um mundo que alardeia a velocidade da informação, que se orgulha em disseminar as comunicações, as informações e as formações, tudo em um tempo acelerado, o mundo em um flash. A cultura da massificação da informação rápida, a internet, o twiter, os cursos à distância, têm obedecido a esta exigência do mercado, oportuna à mediocridade. Os alunos das universidades hoje não sabem mais escrever, pois não precisam mais escrever. Ora, ninguém vai ler, se tiver mais de 3 páginas!

O temor moderno de perder tempo caminha no sentido contrário ao da reflexão, da elucubração, da formação. Pois isso requer tempo. Requer tempo ler um texto de Lacan, assim como requer tempo uma análise. A filosofia requer tempo, a história requer tempo. A apreensão de um conceito, sua assimilação e acomodação, para possibilitar uma futura refutação e reorganização das idéias requer tempo. Uma formação requer tempo.

A psicanálise, assim, lida com um outro tipo de tempo, faz obstáculo a essa pretensa falta de tempo do tempo hipermoderno. É necessário parar pra ler, não podemos nos satisfazer com essa formação instantânea, lendo tweets de 3 linhas no celular enquanto esperamos o sinal abrir, pensando que, desse modo, aprendemos alguma coisa.

Por outro lado, sou obrigado a reconhecer a face necessária do corte.  Analisar a experiência toda é sempre impossível, pois sempre resta algo a dizer. Um texto é sempre um recorte, e é aí que ele ganha toda a sua importância: no recorte aparece uma escolha, e nessa escolha aparece um sujeito e seu desejo. De nada adiantaria se todos falássemos sobre as coisas do mundo de maneira "completa", pois aí só veríamos o mundo, não o sujeito que fala. Quando fazemos o corte (e o corte é um dos conceitos fundamentais na clínica e na teoria de Lacan) podemos ver o que o sujeito escolheu, o que deixou de lado, e o que fez com aquele pedaço recortado.

O corte ajuda a tirar as coisas da cabeça e coloca-las no papel, a tornar isso tudo um texto, em algo que possa ser transmitido. Ajuda a transformar isso em uma palavra endereçada a um Outro, matriz do laço social. Aqui, o laço social existente em uma comunidade de pesquisa.








"Sonhei primaveras longínquas..."



São Paulo vista do alto, com sua camada cinza de vários quilômetros de extensão



Ao abrir o meu arquivo de textos antigos esbarrei com esse texto de abril de 2010, em que morava ainda em São Paulo, inconformado com a poluição absurda, com os engarrafamentos, com a insalubridade constante e permanente de uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes. Se bem que não existem muitas cidades com mais de 10 milhões no mundo, o que coloca São Paulo fora da curva, e o paulistano em uma situação paradoxal: quanto maior é a vontade de sair, mais medo dá! 


 .   .   .


Em seu “Breviário de decomposição”, o filósofo romeno Cioran, radicado na França nos anos 50, nos relata um desejo persistente do homem moderno: o desejo de estar sempre em outro lugar. O que será que acontece com a gente que nunca estamos satisfeitos com a vida, sempre precisamos de algo mais, um salário melhor, uma casa melhor, mudar de cidade, sair mais com os amigos, viajar...?

A insatisfação é inerente ao humano, já dizia Freud, e é por isso mesmo que a vida tem graça: porque nunca estamos plenamente satisfeitos. É essa insatisfação que nos obriga a buscar sempre melhores condições de vida, de trabalho, de felicidade, que nos obriga a acordar todos os dias pela manhã e querer sempre um pãozinho fresco. A satisfação plena significaria a morte, pela inércia que ela provoca. Se tudo estivesse plenamente bem, não precisaríamos levantar da cama, trabalhar, nem mesmo conversar com os outros. A homeostase, palavra que vem da biologia pra significar o equilíbrio dentro do nosso corpo, pode ser utilizada também para nossa alma. O equilíbrio perfeito exige que não nos mexamos, para que não pendamos nem para um lado nem para o outro, para não perdermos o equilíbrio. O sonho viria dessa insatisfação também. Se tudo estivesse bem, provavelmente não sonharíamos mais. E a cessação do desejo, nesse sentido, de não querermos mais alguma outra coisa, seria a própria morte.

Há algumas semanas ouvi uma pesquisa do IBGE no rádio, que dizia que mais de 60% dos paulistanos gostariam de sair de São Paulo e morar em outro lugar. Não me espantei com o desejo, pois compartilho dele, mas com o número. Sempre imaginei que, assim como eu, muitas pessoas não suportam viver nessa cidade de loucos que é São Paulo, com seu trânsito caótico, com cheiro de asfalto, com as crianças “empinando pipa por trás da janela gradeada do apartamento”, como diria um amigo meu. Que não há qualidade de vida em São Paulo, isso todo mundo sabe. E reclama. Mas 60% é muita gente! Significa que mais da metade da população não suporta mais viver nessa cidade e gostaria de se mudar! Mas não se muda. E aí entra outra característica do desejo: o ser humano gosta de reclamar, mas não suporta a mudança! A maioria de nós pensa que, fora de São Paulo, não há trabalho, não há supermercado 24h., não há médicos ou hospitais. Nós vivemos tão alienados nessa cidade maluca que temos a impressão que fora daqui só existem selvas e macacos, que não existe vida civilizada que assegure uma boa escola, um bom emprego.

Felizmente, isso não é verdade. Todos os meus amigos que conseguiram acordar da inércia alienada e se mudaram de São Paulo estão muito bem, obrigado. Conseguiram bons empregos – melhores que os empregos daqui!!! -, seus filhos estudam em boas escolas, e ainda conseguiram algo que só conhecemos nos romances ou novelas: conseguem ficar mais tempo com os filhos, vão almoçar em casa todos os dias, respiram ar puro, demoram 5 minutos para chegar no trabalho. Em suma, descobriram que é possível ter uma qualidade de vida melhor sem precisar abrir mão do mundo civilizado. Quanta coragem precisamos ter para mudar? Às vezes, é melhor a infelicidade conhecida do que a felicidade desconhecida, não é mesmo?

.   .   .

Hoje, há um ano e meio em Salvador, posso responder a mesma coisa: estou bem profissionalmente, meu filho estuda em uma boa escola, tão boa quanto as melhores escolas de São Paulo, e consegui realizar aquele desejo meio mítico de qualquer paulistano: almoço em casa todos os dias, e demoro não 5, mas 20 minutos pra ir e voltar do trabalho.

17/01/2012

A associação livre e a diferença das gerações




Um dia estava no CAPS em que trabalhava, animando um dos grupos da tarde com uma terapeuta ocupacional, e os meninos pediram pra gente ligar o som. Um deles tinha uma disqueteira, e comecei a escolher um CD. Depois de passar por um monte de gente que eu nunca vi nem ouvi, achei um título familiar, escrito com canetinha preta: “FUNK”. É esse, pensei, acreditando que ia escutar alguma coisa do James Brown, Funk como le Gusta, Paula Lima. Coloquei o CD todo contente, e eis que começa a tocar aquele ritmo de maculelê mal produzido, com timbre de órgão de brinquedo e com sotaque carioca, repetindo as maiores baixarias. Que decepção! Tirei o CD frente aos protestos da piazada, e a minha colega, mais nova que eu, me interpelou confusa: “Ué, você não tinha falado que adora funk?” Eu disse: “Funk, não isso!” “Mas isso é funk!” “Não, funk, sabe?, tipo James Brown?, aquele som nascido entre os negros americanos, cheio de swing, naipe de metais fazendo os riffs, a guitarrinha, sabe?” Ela não sabia. Nunca tinha ouvido falar...

Aí outro dia fui dar aula na faculdade, e não sei porque estava falando em Aldous Huxley, e todo mundo me olhou com aquela cara de turista estrangeiro perdido no meio do pelourinho:

“What?”

Tirei a batata da boca, caprichei na pronúncia, e repeti: Aldous Huxley!
Nada.

Ô, gente, escritor, ícone da contracultura nos anos 70, escreveu “Contraponto”?
Nada.

Aí eu facilitei: “Escreveu Admirável Mundo Novo”...
Aí um levantou a mão dizendo que conhecia, todo orgulhoso. Mas não tinha lido...

Aí apelei, porque vi que não tinha jeito: “É o cara que escreveu “As portas da percepção”, em que relata uma experiência ocorrida em 1953, quando ele tinha 60 anos; ele serviu de cobaia para testar os efeitos do recém sintetizado LSD, o ácido lisérgico“...

Ninguém.

Como já tinha perdido a paciência, entreguei logo os pontos: Tá bom, ele se tornou uma espécie de guru de Jim Morrison, vocalista do The Doors, cujo nome da banda é exatamente por causa desse livro AS PORTAS da percepção...

...
...

NINGUÉM???

THE DOORS?????

RIDERS ON THE STORM???

NINGUÉM CONHECE THE DOORS???

O FILME? Ninguém viu o filme do Oliver Stone?  

...
...

Quem?

Oliver Stooone, É O CARA QUE FEZ PLATOON, PORRA!

Aí eu desisti.


Em uma das mansardas da Terra - Cioran





"Sonhei primaveras longínquas,
um sol que só iluminava a espuma das ondas
e o olvido de meu nascimento,
um sol inimigo do sol e desse mal de só encontrar em toda parte
o desejo de estar em outro lugar.

Quem nos inflingiu a sorte terrestre,
quem nos acorrentou a esta matéria morosa,
lágrima petrificada contra a qual - nascidos do tempo - nossos prantos se despedaçam,
enquanto que ela, imemorial, caiu
do primeiro estremecimento de Deus?

Detestei os meios-dias e as meias-noites do planeta,
ansiei por um mundo sem clima,
sem as horas e este medo que as incha,
odiei os suspiros dos mortais sob o volume das eras.

Onde está o instante sem fim e sem desejo,
e esta vacância primordial,
insensível aos pressentimentos das quedas e da vida?
Busquei a geografia do Nada,
dos mares desconhecidos,
e outro sol, livre do escândalo dos raios fecundos;
busquei a oscilação de um oceano cético
onde se afogariam os axiomas e as ilhas,
o imenso líquido narcótico e suave e cansado do saber.

Esta terra, pecado do Criador!

Mas não quero mais expiar as faltas dos outros.
Quero curar-me de meu nascimento
em uma agonia fora dos continentes,
em um deserto fluido,Cioran, E. M. (1949).
em um naufrágio impessoal."



Breviário de decomposição. Rio de Janeiro : Rocco, 1989.